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01 A novidade (Bi Ribeiro - João Barone - Gilberto Gil - Herbert Vianna)
A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia
A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia
Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total
E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia
A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado |
02 Dos margaritas (Bi Ribeiro - Herbert Vianna)
Fazer um desenho nas costas da mão
Despir a consciência das dores morais
Jogar uma vaca do décimo andar
Viajar sob a lua que varre os sertões
Uma ostra chilena, um beijo em Paris
Se cortasse o cabelo e mudasse o nariz
Se Vital escrevesse a constituição
Se eu nunca quisesse quem nunca me quis
Ser dois e ser dez e ainda ser um
Se a vingança apagasse a dor que eu senti
Ser seco, reto, isento, amoral
Se eu nunca lembrasse o estrago que eu fiz
Tudo isso me faria feliz
Absurdos me fariam feliz
Pero nada me hará tan feliz
Como dos margaritas |
03 Vamo batê lata (Herbert Vianna)
Vamo batê lata, tonel, garrafa d'água
Vamo batê no pulso da artéria da rua
Vamo batê palma até de madrugada, vamo pr'aquela praça
Da verdade nua
Vamo de tamanco pro cubanco
No aperto do abraço do suvaco do pão
Quatro sete sete cinco meia no batuque samba-funk
Da alegria arrastão
Tá desorienteda, você não sabe nada
Moleque de rua e a nova língua de Brown
Pega no meu braço, aperta a minha mão
Vamo no balanço funk do lotação |
04 Alagados (Bi Ribeiro - João Barone - Herbert Vianna)
Todo dia
O sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo quem já não queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade
Que tem braços abertos num cartão-postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de tevê
A arte é de viver da fé
Só não se sabe fé em quê |
05 Caleidoscópio (Herbert Vianna)
Não é preciso apagar a luz
Eu fecho os olhos e tudo vem
Num caleidoscópio sem lógica
Eu quase posso ouvir a tua voz
Eu sinto a tua mão a me guiar
Pela noite a caminho de casa
Quem vai pagar as contas deste amor pagão
Te dar a mão, me trazer à tona prá respirar
Quem vai chamar meu nome
Ou te escutar
Me pedindo prá apagar a luz
Amanheceu, é hora de dormir
Nesso nosso relógio sem órbita
Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Prá gente não ter nunca mais que terminar |
06 Meu erro (Herbert Vianna)
Eu quis dizer -
você não quis escutar
Agora não peça,
não me faça promessas
Eu não quero te ver
Nem quero acreditar
que vai ser diferente
Que tudo mudou
Você diz não saber
o que houve de errado e
O meu erro foi crer
que estar ao seu lado bastaria
Ah meu Deus -
era tudo o que eu queria
Eu dizia o seu nome
Não me abandone jamais
Mesmo querendo
eu não vou me enganar
Eu conheço seus passos
eu vejo seus erros
Não há nada de novo
Ainda somos iguais
Então não me chame
Não olhe pra trás |
07 Trac-trac (Track track) (Fito Paez - Herbert Vianna)
Não, não passa o tempo
Ao menos para mim
Eu tomo comprimidos e sigo sem dormir
Vejo tantos portos, não há onde atracar
Já não existem laços - alguém cortou,
Trac - Trac - Trac
Todos os perfumes, todo aquele lugar
Todas as misérias, tudo mais que há
Cada movimento do sol sobre você
Cada móvel velho, cada anoitecer
Dá-me tu amor, solo tu amor
Poucas garantias há para nós dois
Nada nesse mundo tem algum valor
Todos os vizinhos parecem saber
E lançam seus olhares sobre eu e você
Veio todo o mundo, o rádio e a tevê
Veio o comissário, anjos do céu também
Todos querem algo, sangue ou não sei quê
Em todo o universo nada lhes dá mais prazer
Dá-me tu amor, solo tu amor |
08 O rio Severino (Herbert Vianna)
Um tísico à míngua espera
a tarde inteira
Pela assistência que não vem
Mas vem de tudo n`água suja, escura e espessa deste
Rio Severino, morte e vida vêm
Mas quem não tem abc não pode entender HIV
Nem cobrir, evitar ou ferver
O rio é um rosário cujas contas são cidades
À espera de um Deus que dê
Quem possa lhes dizer
Me diz o é que você tem
A quem se pode recorrer
Me diz o que é que você tem
É muita gente ingrata reclamando de barriga d`água cheia
São maus cidadãos
É essa gente analfabeta interessada em denegrir
A boa imagem da nossa nação
És tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por
quem tem
Acesso fácil a todos os teus bens
Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre e reza
À espera de um Deus que não vem
O que é que você tem
Me diz o que é que você tem
O que é que eu posso te dizer?
Me diz o que é que você tem |
09 Lanterna dos afogados (Herbert Vianna)
Quando está escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar
Eu estou na Lanterna dos Afogados
Eu estou te esperando
Vê se não vai demorar
Uma noite longa
P`ruma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar
E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar
Eu tou na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar |
10 Um a um (Edgar Ferreira)
Esse jogo não é um a um
(se o meu time perder tem zum-zum-zum)
Esse jogo não pode ser um a um
O meu clube tem time de primeira
Sua linha atacante é artilheira
A linha média é tal qual uma barreira
O center-forward corre bem na dianteira
A defesa é segura e tem rojão
E o goleiro é igual um paredão
É encarnado e branco e preto
É encarnado e branco
É encarnado e preto e branco
É encarnado e preto
O meu time jogando, eu aposto
Quer jogar, um empate é pra você
Eu dou um zurra a quem aparecer
Um empate pra mim já é derrota
Eu confio nos craques da pelota
E o meu clube só joga pra vencer
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11 O beco (Bi Ribeiro - Herbert Vianna)
No beco escuro explode a violência
Eu tava preparado
Descobri mil maneiras de dizer o teu nome
Com amor, ódio, urgência
Ou como se não fosse nada
No beco escuro explode a violência
Eu tava acordado
Ruínas de igrejas, seitas sem nome
Paixão, insônia, doença
Liberdade vigiada
No beco escuro explode a violência
No meio da madrugada
Com amor, com ódio, urgência
Ou como se não fosse nada
Mas nada perturba o meu sono pesado
Nada levanta aquele corpo jogado
Nada atrapalha aquele bar ali na esquina
Aquela fila de cinema
Nada mais me deixa chocado, nada! |
12 Romance ideal (Martim Cardoso - Herbert Vianna)
Ela
é só uma menina
e eu pagando pelos erros
Que eu nem sei se eu cometi
Ela é só uma menina
e eu deixando que ela faça
O que bem quiser de mim
Se eu queria enlouquecer
Essa é a minha chance
É tudo o que eu quis
Se eu queria enlouquecer
Esse é o romance ideal
Não pedi que ela ficasse,
ela sabe que na volta
Ainda vou estar aqui
Ela é só uma menina
e eu pagando pelos erros
Que eu nem sei se eu cometi |
13 Não me estrague o dia (Bi Ribeiro - Herbert Vianna)
Gerando um filho
Fazendo um acerto
Plantando milho
Estou em reunião
Pedindo aumento
Não estrague o meu dia
Passando fome
Diga que eu não estou
Na construção
Num belo apartamento
No hospital
Num restaurante francês
Ajoelhado
Oh, não, é você de novo
Está faltando
Ainda é começo de mês
Nada justifica essa dor
É tua alma brasileira que ainda veste essa cor
Nada justifica essa dor
É tua alma posta a venda sem achar comprador |
Disco
2
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01
Uma brasileira (Carlinhos Brown - Herbert Vianna)
Rodas em sol, trovas em só
Uma brasileira, ô
Uma forma inteira, ô
You, you, you
Nada demais
Nada através
Uma légua e meia, ô
Uma brasa incendeia, ô
You, you, you
Deixa o sal no mar
Deixe tocar aquela canção
One more time
Tatibitate
Trate-me, trate
Como um candeeiro, ô
Somos do interior do milho
E esse ão de são
Hei de cantar naquela canção
One more time |
02
Saber amar (Herbert Vianna)
A crueldade de que se é capaz
Deixar pra trás os corações partidos
Contra as armas de um ciúme tão mortais
A submissão às vezes é um abrigo
Saber amar É saber deixar alguém te amar
Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio
O amor te escapa entre os dedos
E o tempo escorre pelas mãos
O sol já vai se pôr no mar |
03
Luiz Inácio (300 picaretas) (Herbert Vianna)
Luís Inácio falou, Luís
Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jetom
Variações do mesmo tema sem sair do tom
Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída
Pra fazer justiça uma vez na vida
Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar, por qualquer trocado
Por um par de sapatos, por um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês
Papai quando eu crescer, eu quero ser anão
Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição
E se eu fosse dizer nomes a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão |
04
Esta tarde (Herbert Vianna)
Alguma invenção
Que faça o tempo parar esta tarde
Quando se for o sol
Que a luz desse dia nunca acabe
Esteja sempre perto, sempre longe dos covardes
O errado e o certo, pra ter raiva e ter piedade
Arcos de toda cor vão escrever teu nome
Na paisagem
Te levo pela mão
E o viajar já é mais que a viagem
Esteja sempre perto
Sempre longe dos covardes |