01 Será que vai chover? (Herbert Vianna)
Eu fico pedindo atenção
Cachorro fazendo graça
Você não diz nem sim nem não
Faz que não entende, disfarça
E me pergunta, com essa cara:
"Será que vai chover?"
Eu não sei, não, não
Eu sigo chamando, chamando mas
Você não me abraça
Mais um pouco eu desisto
Eu quase morro de raiva e disfarço
E me pergunto:
Será que vai chover?
Eu não sei, não, não
Eu ando tão perdido de desejo
Em cada esquina eu imagino te ver
Hoje é domingo, eu tenho vinte e cinco |
02 Alagados (Bi Ribeiro - João Barone - Herbert Vianna)
Todo dia
O sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo quem já não queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade
Que tem braços abertos num cartão-postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de tevê
A arte é de viver da fé
Só não se sabe fé em quê |
03 Ska (Herbert Vianna)
A vida não é filme
Você não entendeu
Ninguém foi ao seu quarto
quando escureceu
Saber o que passava
no seu coração
Se o que você fazia
era certo ou não
E a mocinha se perdeu
olhando o sol se pôr
Que final romântico
Morrer de amor
Relembrando da janela
tudo o que viveu
Fingindo não ver
os erros que cometeu
E assim tanto faz
Se o herói não aparecer
E daí?
Nada mais...
A vida não é filme
Você não entendeu
De todos os seus sonhos
não restou nenhum
Ninguém foi ao seu quarto
quando escureceu
E só você não viu,
Não era filme algum... |
04 Óculos (Herbert Vianna)
Se as meninas do Leblon
não olham mais pra mim
(Eu uso óculos)
E volta e meia eu entro
com meu carro pela contramão
(Eu tô sem óculos)
Se tô alegre eu ponho os óculos
e vejo tudo bem
Mas se estou triste eu tiro os óculos
eu não vejo ninguém
Por que você não olha pra mim?
Me diz o que é que eu tenho de mais
Por que você não olha pra mim?
Por trás destas lentes tem um cara legal
Eu quis te dizer que eu nunca fui "o tal"
Era mais jogo se eu tentasse
fazer charme de intelectual
Se eu te disser periga você
não acreditar em mim
Eu não nasci de óculos
Eu não era assim, não
Por que você não olha pra mim?
Por que você diz sempre que não?
Por que você não olha pra mim?
Por trás destas lentes também
bate um coração
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05 O homem (Bi Ribeiro - Herbert Vianna)
O homem traz em si a santidade e o pecado
Lutando no seu íntimo
Sem que nenhum dos dois prevaleça
O homem tolo se põe a lutar por um lado
Até perceber
Que golpeia e sente a dor
Ele é o alvo da própria violência
Só então vê
Que às vezes o covarde é o que não mata
Que às vezes é o infiel que não trai
Às vezes benfeitor é quem maltrata
Nenhuma doutrina mais me satisfaz
Nenhuma mais |
06 Selvagem (Bi Ribeiro - João Barone - Herbert Vianna)
A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cassetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter tudo
Em seu lugar
O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard
A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar
Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só |
07 Charles, anjo 45 (Jorge Ben)
Oba, oba, oba, Charles
Como é, my friend Charles
Como vão as coisas, Charles
Charles, anjo 45
Protetor dos fracos e dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade com muita coragem
Só porque Charles marcou bobeira
Foi tirar férias forçadas numa colônia penal,
oba
Oba, oba, oba, Charles
Como é, my friend Charles
Como vão as coisas, Charles
Charles, anjo 45
Protetor dos fracos e dos oprimidos
Mas é Deus é justo e verdadeiro
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar
Para alegria geral
Antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Missa em ação de graças
Whisky com feijoada
E outras bilongas mais
Oba |
08 A novidade (Bi Ribeiro - João Barone - Gilberto Gil - Herbert Vianna)
A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia
A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia
Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total
E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia
A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado |
09 Meu erro (Herbert Vianna)
Eu quis dizer -
você não quis escutar
Agora não peça,
não me faça promessas
Eu não quero te ver
Nem quero acreditar
que vai ser diferente
Que tudo mudou
Você diz não saber
o que houve de errado e
O meu erro foi crer
que estar ao seu lado bastaria
Ah meu Deus -
era tudo o que eu queria
Eu dizia o seu nome
Não me abandone jamais
Mesmo querendo
eu não vou me enganar
Eu conheço seus passos
eu vejo seus erros
Não há nada de novo
Ainda somos iguais
Então não me chame
Não olhe pra trás |
10 Será que vai chover? (Versão estudo) (Herbert Vianna) |