01 A nova cruz (Herbert Vianna) A
nova cruz brasileira
A cruz em forma de X
Diferente das cruz das Igrejas
Da cruz que ocupou Paris
Mas tal como as outras cruzes
Aponta, julga e condena
Amarra os pés e as mãos
Dos que já nascem com ela
Cruz escrita ma testa
(doente, febril, amarela )
Cruz desenhada nos vãos
( entre os dentes da boca banguela )
Cruz sobre os viadutos
( início da nova favela )
Cruz em cada cruzamento
( vendendo limão e miséria )
Cruz imensa em suor
( que pinga e não fura pedras )
Cruz marcada a fogo
(nos malhos, caldeiras, panelas )
Nas mãos
Na testa
Nas pedras
A cruz selando o destino
Do morto, que vivo se enterra
O futuro como um precipício
A cruz lá embaixo, à espera
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02 The scientist writes a letter (Tom Verlaine) My
Dear
Unless chance finds us face to face again
This is the last you´ll hear from me
I spent this sunday, a long afternoon
Freezing at my friend´s house by the sea
We men of science...You know
I´ve returned to my research in magnetic fields
It´s funny how attractive indifference can be
My sence of failure...It´s not so important
Electricity means so much more to me
We men of science...You know
It´s snowing again, it seems its always snowing
I sit down to write, and its so cold
Outside my window there´s a tree
So write I can hardly look at it
It´s quiet here, I look thru my glass
At patterns all so well defined
Please send my winter coat soon as you can
I find I have no other lines
We men of science....You know
All the best, all the best for you
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03 O Rio Severino (Herbert Vianna) Um
tísico à míngua espera a tarde inteira
Pela assistência que não vem
Mas vem de tudo n'água suja, escura e espessa deste
Rio Severino, Morte e Vida vêm
mas quem não tem abc não pode entender HIV
Nem cobrir, evitar e ferver
O rio é um rosário cujas contas são cidades
À espera de Deus que dê
Quem possa lhes dizer
Me diz o que é que você tem
O que é que eu posso te dizer?
Me diz o que é que você tem
É muita gente ingrata reclamando
De barriga d'água cheia
São maus cidadãos
É essa gente analfabeta interessada em denegrir
A boa imagem da nossa nação
És tu Brasil, ó Pátria amada, idolatrada por
quem tem
Acesso fácil a todos os teus bens
Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre e reza
À espera de um Deus que não vem
O que é que você tem
Me diz o que é você tem
A quem se pode recorrer
Me diz o que é que você tem
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04 Qualquer palavra serve (Herbert Vianna) Ê
Onde anda você
Faz tempo que a gente não se vê
Ê
Batumaré
É sempre bom voltar
A luz se acendeu de novo
A porta nunca vai
Se fechar
Ê
Batumaré
Qualquer palavra serve
Pra dizer
Dessa alegria
A luz se acendeu de novo
A porta nunca vai se fechar
Ê
Batumaré
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05 Mobral (Herbert Vianna) Do
que adiantam?
Placas. Bulas, instruões...
Do que adiantam?
Letras impressas das canções...
Do que adiantam?
Gestos educados, convenções...
Do que adiantam?
Emendas , constituições
Se o teto da escola caiu
Se a parede da escola sumiu
Sem dente o professor sorriu
Calado recebeu dez mil
E depois assistiu na Tevê
Em cadeia para todo Brasil
O projeto, a tal salvação
Prestou atenção e no entanto não viu
A merenda, que é só o que atrai
A cadeia para qual o rico vai
Despachantes, guichês, hospitais
E os letreiros de frente pra trás
Aos olhos de quem
Só aprendeu o bê-á-bá
Pra tirar carteira de trabalho
E não entendeu Zé Ramalho cantar
Vida de gado
Povo marcado
Povo feliz
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06 Lição de astronomia (Herbert Vianna) Nuvem
preta desse céu
Guarda minha oração
E o tempo pára
Nada muda de lugar
Nessa outra dimensão
A incerteza acaba
Choverão estrelas enfim
Estrelas de ti sobre mim
Gira o mundo devagar
Sabe bem sua razão
Gira sobre o nada
Fecho os olhos pra rezar
Brilha a cruz na escuridão
Da tarde que se apaga
Choverão estrelas, enfim...
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07 A dureza concreta (Herbert Vianna) Teu
sangue ralo explica
Tua fome de comer
Fome de engolir com os olhos
Tudo que se pode ver
Fome de camisa limpa
De ter fome, fome ter
Já que a garganta seca
E o difícil engolir
Te impõe essa dieta
Quase que como um dever
É outra vez a marreta
Que levanta e vem ao chão
É a dureza concreta
Da vida da cosntrução
É tua tristeza certa
É tua cama de pau
É tua existência tonta
Precisando de oração
Se o que te corre nas veias
Já não te sustenta mais
Te resta o chão, o limite
De onde nunca passarás
Senão pra vala comum
Sem sete palmos contar
Pra tua pouca magreza
Dois ou três hão de bastar
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08 O retirante Harry-Dean (Herbert Vianna) Ainda
vai ter que andar muito sob o sol
Abotoar cada botão do paletó
Juntar poeira e vento ao seu suor
Remoer um pensamento
Como Harry-Dean
Harry-Dean Stanton
Ainda falta, prá cruzar este deserto
Ignorar a tudo e a todos, longe ou perto
Não levantar as mãos, os olhos, ficar quieto
Como uma estátua de cimento,
Como Harry-Dean
Harry-Dean Stanton
Se consumir na obsessão, fugir do mundo
Ser um mendigo, andarilho, vagabundo
Ser imóvel, surdo, cego, quase mudo
E escolher o momento
Como Harry-Dean
Harry-Dean Stanton
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09 Rio 92 (Herbert Vianna) Essa
"vibe" estranha no ar
A grana curta
Sem sonhos, sem um novo amor
Batendo à porta
Entre tantos rombos por remendar
O rio afunda
Num rio mais fundo que o mar
Tudo às escuras
Acesas as velas do mar
Um homem leva seu mundo na mala
É quase manhã
E nada brilha
Se há um brasileiro, há Brasil
Mas o tempo não pára
É quinta, é 22 de abril
E a conta é cara
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10 Impressão (Bi Ribeiro - João Barone - Herbert
Vianna) Hum!
Até num dia calmo como hoje
Pode haver surpresa
Eu ouço os pingos na janela
Quem me dera não ter nada pra fazer
As plantas tão verdes
Nesse dia tão cinza
Passa um carro amarelo
Colorindo as poças
E me deixa tão só
Tá tudo tão calmo
Continua chovendo
Enquanto eu respiro
Eu vejo o mundo sumindo
Por trás da janela ambaçada
Aonde batem os pingos
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11 A primeira neve (Herbert Vianna) Desse
lado da avenida bate o sol
Passam automóveis, cores, sons
A dor está tão longe desse hotel
Tanta gente na rua
Eu lembro de outros tempos, outras mãos
Me puxam pela rua a me levar
As tuas me traziam pra esse hotel
Sem testemunhas
Alegria!
Teu sorriso é o que ilumina
A madrugada fria
Tua mão me levava e me trazia
Trazia
Fazia tanto frio, então nevou
Nas ruas, nas vitrines de natal
A gente quase nem acreditou
A gente olhava e ria
Agora na avenida bate o sol
São outras mãos que estão a me levar
As tuas me traziam pra esse hotel
E a gente ria
Alegria
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