Os Grãos


01 Tribunal de bar (Bi Ribeiro - Herbert Vianna)


Foi julgado, condenado, executado
Sem direito a apelação
Foi dissecado, comentado e açoitado
Pelas línguas do Leblon
Descontrolou-se porque algo estava errado
Mas ninguém deu atenção
E finalmente foi traído
E viu seu nome publicado num jornal
É o veneno que sai
É o veneno que sai
E te faz o pior entre os iguais
Nos tribunais de qualquer bar


02 Sábado (Herbert Vianna)


Gotas de amor sobre as feridas
Como um bálsamo
Ondas de amor pelas cortinas
Como um sábado de sol
Eu só queria te dizer
Que aquela dor já passou
Fingir que não, passar por cima
Nunca me ajudou
Onda de amor me contamina
Como um sábado de sol
Eu só queria te dizer
Que aquela dor já passou


03 Tendo a lua (Herbert Vianna)


Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu
E lendo os teus bilhetes eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a Lua aquela gravidade
Aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos e de você e eu
Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo os teus bilhetes eu penso no que eu fiz
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
Tendo a Lua...


04 Os grãos (Demétrio Bezerra - Herbert Vianna)


Tudo o que te ensina existe solto por aí
De frente a quem te leva e te domina por amor
Colar de força no pescoço, sombra e água ruim
A vida que eu não tinha ainda agora começou
Um outro sonho tanto quando os que já vivi
Um belo dia o sol do amor e a sombra da paixão
E vê a linha fina que separa aqui e ali
Já não escolhe, não distingue, traz dentro de si
Os grãos


05 Carro velho (Herbert Vianna)

Carro velho
Carro velho pra quê?
Se é pra ficar no caminho
Eu prefiro nem ter
Eu quero ter um novinho
Eu quero um tipo cupê
Um dia eu ganho sozinho
Aí é que vocês vão ver
Carro velho
Carro velho pra quê?
Já não bastasse a miséria
O pouco que se comer
Já basta ver nas vitrines
Coisas que eu nunca vou ter
Mas um dia eu ganho sozinho
Aí é que vocês vão ver
Pra ver os meus filhos com vergonha de mim
(Carro velho pra quê?)
Pra ver os vizinhos todos rindo de mim
(Carro velho pra quê?)
Eu tenho raiva do mundo
Eu tenho raiva de mim
Eu tenho raiva de tudo, tudo o que eu não posso ter
Carro velho
Carro velho pra quê?
Pra enfeitar a sujeira
Da rua que me viu nascer
Eu já empurro carroça
Eu já carrego essa cruz
Um dia eu ganho sozinho
Aí é que vocês vão ver


06 Vai valer (Herbert Vianna)


Se eu saísse correndo, gritando, cantando
Num pulo a colméia inteira vinha
Se eu tocasse a moda dos sete, a pedra dos nove
Às cinco eu vejo aquela estrelinha
Pintassilgo do mato, oito pés de coco
Silêncio, um carro e acaba-se a folia
Indigente cantando eu viro de lado e abraço
Com todo o embalo dessa linha
Vai valer, então
Vai valer
Se eu deixasse mais claro, era claro
Eu jogo os cacos pro alto e faço uma figura
Que vista de longe já houve quem visse de tudo
E os traços do rosto de uma santa
Mas eu não desisto e dobro os cabos e portos
Espero que ainda esteja viva
Não vou, permaneço fiel às idéias
E peço à colméia alguma garantia
Vai valer, então
Vai valer


07 Trac trac (Fito Paez)


Não, não passa o tempo
Ao menos para mim
Eu tomo comprimidos e sigo sem dormir
Vejo tantos portos, não há onde atracar
Já não existem laços - alguém cortou,
Trac - Trac - Trac
Todos os perfumes, todo aquele lugar
Todas as misérias, tudo mais que há
Cada movimento do sol sobre você
Cada móvel velho, cada anoitecer
Dá-me tu amor, solo tu amor
Poucas garantias há para nós dois
Nada nesse mundo tem algum valor
Todos os vizinhos parecem saber
E lançam seus olhares sobre eu e você
Veio todo o mundo, o rádio e a tevê Veio o comissário, anjos do céu também
Todos querem algo, sangue ou não sei quê
Em todo o universo nada lhes dá mais prazer
Dá-me tu amor, solo tu amor


08 O rouxinol e a rosa (Herbert Vianna)


Sob o céu frio e cinza
Um impasse e poucas opções
Não há rosas no jardim
E há tempo não se ouvem os rouxinóis
Se eu soubesse amar, eu cravaria
Um espinho ao meu pobre coração
Vermelha então seria a rosa
E entre outras brilharia como o sol
Mas por um instante eu duvidei
E o sangue então se derramou em vão
Morreu por nada o rouxinol
E a rosa não chegou às tuas mãos


09 A outra rota (Herbert Vianna)


Eu vou fechar as contas e me mandar
Me ajoelhar, pedir perdão
Depois te perdoar
Você não merece o que eu te fiz
Só pra te machucar
Como se o forte fosse eu
Eu tou em outra rota pra um outro lugar
Eu quero as coisas certas
Eu quero te falar
Você não merece o que eu te fiz
Tentando te mudar
Como se o certo fosse eu
Agora somos só nós dois olhando pros lados
Depois de tanta estupidez
Agora somos só nós dois olhando pros lados
Já nem te vejo mais
E acreditar, e acreditar
Mesmo sem ver as provas
De cada corte corre o sangue
E a vida se renova
Você sabe o que eu já fiz
E do que fui capaz
Mas fica tudo entre nós


10 Dai-nos (Herbert Vianna)


Eu não sou nada
E há tudo em mim
Passou e eu entendi
Como assim
Você ainda não viu
Eu já disse sim
E posso ver então
Como assim
Espero um milagre
Um sinal de Deus
Tua amizade
Qualquer gesto de compreensão
Não tente mais ver
Onde está o fim
Está longe, está aqui
Como assim
Você ainda não
Eu já disse sim
E posso ver então
Como assim...


11 Ah, Maria (Herbert Vianna)


Eu queria falar com você
Te dizer o que eu sentia
Ah, Maria, Maria
Eu sei que você está em algum lugar
Nessas ilhas
Eu queria viver com você
Poder te ter todo dia
Ah, Maria, Maria
Agora você vê
Aquela estranha mesquita
O fim da tarde, a água escura do mar
Fica pra trás a sombra das ilhas
Ah, Maria, Maria
Não te machuca os pés
Andar descalça na rua
O cais do porto, as igrejas e o céu
A noite, os rios e as outras meninas
Ah, Maria, Maria
Será que você sorriu
Lembrando daqueles dias


12 Não adianta (Herbert Vianna)


Não vai mudar
Promessas nem rezas
Não vai voltar
O tempo, os dias
Fecha os olhos pra ter a sensação
Aquela tarde não é mais não
Não adianta
Vizinhos, polícia
Não vai voltar
O tempo, os dias
Em que tudo ainda estava no lugar
Abra os braços, abraça o que sobrar


13 Trinta anos (Herbert Vianna)


Chove à noite, chove
Os dois pés no chão
Só me faltam nove
Só resta a visão
Ordem, quem quiser se vire, ordem
Eu vou atrás de mim
Vale tudo,
Vale livre, pasmem!
A voz que me disse sim
Dorme à noite, dorme
Só eu é que não
Quadro que comove
Olhos, pés e mãos
Ainda ontem, ainda há uma chance
A vida vive em mim
Bem maior tão desigual, bastante
E torna a dizer sim
Eu disse: eu te amo
Me senti no chão
São os trinta anos
E este colchão
E uma onda que não muda nunca
A dor que vai e vem
São remotas sensações longíquas
Agora eu lembro bem